Sim.
Eu já sonhei ser modelo. Depois atriz. Depois cantora. Qualquer coisa que me colocasse num palco. Mas tudo isso durou pouco.
Não fui atrás de nenhum desses sonhos. Fui estudar sobre tudo isso e virei designer. Nisso, persisti.
Não persisti nos meus outros sonhos porque me escondi atrás dos meus quilinhos a mais, dos meus dentes desalinhados, das minhas canelas finas, do meu cabelo diferente, da minha timidez. Sim, tudo isso ainda faz parte de mim. Não fiz plástica, não usei aparelho, não coloquei silicone, nem escova progressiva, nem fonoaudiologia. Mais tarde, a essas imperfeições vieram se juntar varizes, estrias, celulite, olheiras mais cabelos brancos.
Sim, eu tenho 27 anos.
Não, eu não uso maquiagem. Talvez porque ao longo do tempo eu tenha aprendido a me aceitar assim, quase como sou. Talvez porque eu me ache, hoje, mais bonita do que realmente percebia. Talvez porque eu ficava esperando a opinião do outro para me sentir assim. Quando eu me olho no espelho, tento ser feliz no papel de mim mesma.
Sim, eu gosto de me expor. Isso me diverte e me faz levar a vida menos a sério.
Não, atualmente eu não pratico esportes. Porque sou preguiçosa também.
Sim, eu gosto de roupas diferentes. Sou consumidora compulsiva de coisas originais. Ainda estou me aprendendo a comprar mais roupas, uma cura pra uma alto estima baixíssima, praticamente nano. Lentamente, que é como as verdadeiras curas funcionam. E a cura está em expor meus exageros, transformando o vício em uma coisa boa. Sim, eu já gastei demais, já me endividei, já sofri por isso. Já me culpei. Depois descobri que me culpar só me faria insistir no vício. Sim, eu estou procurando me perdoar.
Sim, eu já sofri por amor. Muitas vezes. Já fiz sofrer também. Sim, eu já me separei. Não, não foi fácil. Mas reencontrei a alegria. E foi bom. Sim, por que agora há espaço para poder encontrar o amor da minha vida.
Sim, eu só tenho a agradecer. Porque amei e fui amada. Sim, faltaram algumas coisas. Mas sobrou amor. E não faltou dizer nada. Nem ouvir.
Já vivi muitas coisas. E não me canso de me surpreender com a vida. Sim, para melhor.
Sim, eu me sinto sozinha. Mas não me assusto mais com isso. Tenho me achado ótima companhia.
Sim, eu me orgulho. Não das minhas perdas, mas da maneira como lido com elas. Desde os 12 escrevo sobre a minha dificuldade de estar no mundo. Tanto tempo, que foi ficando fácil. Estou fazendo as pazes comigo e com o mundo.
Sim, eu sou a filha mais velha de uma família complicada. Não fui mimada. E já fui insuportável. Não, eu não era ouvida. Eu me sentia abandonada. Só falava em tom de choro. Sim, eu me sentia feia. Sim, eu deixei os cabelos crescerem pela primeira vez aos 19 anos e nunca mais os quis curtos. Porque isso me libertou. Sim, foi uma alegria descobrir que a feminilidade estava dentro de mim, e não nos cabelos.
Sim, eu jogo vídeo-game. Isso também me liberta e me ajuda a levar a vida de um jeito mais leve.
Sim, eu gosto de me vestir bem. E demorei muito tempo para entender que isso deveria ser uma das prioridades pra mim.
Sim, eu gosto de moda. Não a moda ditada pelo último São Paulo Fashion Week. Gosto de moda na coleção que eu mesma lanço ao fazer minhas escolhas. Gosto do desfile que começa a cada dia na hora de me vestir. Sim, essa é a minha forma de fazer moda.
Sim, eu poso de modelo. E me mostro, com frio no estômago. Não, as fotos não têm retoque de photoshop. E eu não tenho uma equipe para me vestir nem para me maquiar. Sim, tenho amigos talentosos que topam a minha viagem todos os dias. Sim, tenho sorte.
Sim, eu gosto de ser diferente. E adoro elogios. Eles fazem do outro o meu espelho e isso é muito bonito. Sei elogiar também. E sempre que o faço, é sincero.
Sim, estou em reconciliação com a modelo que existe em mim. Que tem olheiras, varizes, cabelos brancos e nenhuma maquiagem. Sim, estou em lua de mel também com a criadora que existe em mim.
Sim, eu convivo diariamente com as minhas frustrações. As vezes elas parecem tão grandes, tão ameaçadoras, mas nenhuma é grande o suficiente para me fazer infeliz. Só falta eu acreditar um pouco mais em mim. Sim, eu vejo pessoas à minha volta. E muitas delas sofrem também. E a gente troca.
Sim, de vez em quando sinto inveja. Mas quando isso acontece, procuro a saída mais bem-humorada. Sim, é muito bom quando você consegue dar ao outro apenas o melhor que está em você. Sim, hoje atraio olhares. Nem todos são bons. Mas tenho que aprender a lidar com isso.
Sim, eu ouço som bem alto. Danço com a luz apagada.
Sou triste e sou alegre. Sim, sou eu.
Sim, eu sou mulher. E sou modelo, atriz, artista. Tenho uma profissão que me permite exercer tudo isso. Construí meu pró

rio palco.
Sim, as vezes eu me acho poderosa. Mesmo porque, é comigo que posso contar. Sim, em alguns momentos percebo que a imagem que involuntariamente construí é diferente de mim. Mas é parecida também. E eu não tenho controle sobre isso.
Hoje eu estou assim. Vestida dos meus sins e dos meus nãos. Vestida de mim mesma. Praticamente nua. Livre de falsas identidades e convidando você a se libertar também.
A você, homem ou mulher que vem aqui, todos os dias, tentar se ver um pouco em mim: Aproveite a vida e seja feliz!